A minha orquestra particular

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Edição 368Itapema: Por modéstia não havia lhes dito, caros leitores e estimadas leitoras, que sou um feliz proprietário de uma grandiosa, afinadíssima e bela orquestra. Oh! – dirão o senhores e as senhoras – como pode o Juquita ser dono de uma orquestra?! E eu vos digo, que sou um dos poucos privilegiados deste mundo de ter recebido tão elevada honraria. E tem horário certo para executar os seus concertos essa minha encantadora orquestra. Todos os dias, logo que madrugada vai terminando, assim que o dia vem nascendo de mansinho, meus músicos, centenas deles, de posse de seus melodiosos instrumentos, iniciam tão bela apresentação.

Pois vou lhes falar da minha orquestra particular. Acontece que bem em frente da minha sacada existe um terreno, e neste terreno existe uma imensa, antiga e frondosa figueira. E é esta figueira o palco da minha orquestra. A cidade inteira dorme e o silêncio só é quebrado pelo balanço das ondas do mar. Então, pontualmente às 5 horas minha orquestra começa a emitir seus primeiros acordes. Inicia devagarinho, lentamente como num necessário aquecimento, para, dali a alguns instantes aumentar o ritmo a um ponto tão elevado, que me coloca invadido de indizível encantamento. Meus músicos exigem de si o máximo que brota dos seus talentos maravilhosos e eu ali sentado, o único espectador, servindo de plateia. Do meu camarote, me desligo dessas preocupações medíocres do cotidiano, abro os ouvidos, libero a alma das minha imundícies, deixo exalar a sensibilidade que me restou, esqueço que sou um homem rude, ponho de lado minhas derrotas, faço de conta que não tive grandes amores, abafo velhas saudades que roem minhas entranhas, retiro da lembrança aquela linda castelhana por quem já ando cometendo certas loucuras e, enfim, me entrego a assistir o mais grandioso espetáculo que a minha cidade pode oferecer.

De onde estou não enxergo os músicos da minha orquestra. Estão eles escondidos, invisíveis entre os galhos da imensa figueira. E durante a meia hora seguinte, tempo que dura aquela apresentação, caio de enlevo e me vem uma emoção, uma alegria, que me faz erguer a cabeça para o céu ainda cinzento, e agradecer ao Criador – porque é bela a vida, oh, Senhor das Alturas, como a vida é bonita! Nesse momento me dá um desejo de ser eterno e peço para o Supremo, que nunca me deixe morrer. Precisamos dessas belezuras para tornar mais suave nossos dias aqui por cima deste duro chão. Necessitamos sorrir com essas bondades que nos são oferecidas – que não nascemos com vocação para nos tornarmos máquinas, dessas feitas de movimentos repetitivos, rotineiros e enfadonhos – esses tristes homens, essas tristes mulheres que não conseguem colher da vida sequer uma breve ocasião, 30 minutos que seja de prazer, dos dias pesados e duros e suados e cansativos, enquanto estão respirando neste lugar, durante esse breve e aflito passeio.

E o dia chegou. Hora da minha orquestra cessar seus trinados. Já não mais gorjeiam os meus músicos. Agora se iniciam os barulhos e sons da cidade

que se movimenta para mais um dia de fúria. Os músicos da minha orquestra calam seus bicos, abrem as asas e voam e revoam para lugares distantes, e eu volto a ser apenas um homem – frágil homem, mortal homem; homem da terra somente. Que crueldade é essa, Senhor, de me devolver, todos os dias para as cruezas dessa realidade, assim que minha orquestra vai embora?!

Daí que me resta uma mesa fria, uma caneta Bic e pilhas de papel em branco que eu tenho a obrigação de preencher até o último estirão das minhas pernas, época do derradeiro e interminável repouso.

Porém, caro leitor e estimada leitora, me resta um conforto. É saber que amanhã de madrugada, escondida na imensa figueira, minha orquestra voltará para tocar novamente. Ali estarão presentes todos os meus músicos, todos os meus adoráveis passarinhos, de todas as espécies que por aqui há. Eles, com suas mágicas cantorias.

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